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Continuando o tema de capa da edição anterior, entrevistamos o dr. Franklin Ribeiro para aprofundarmos mais o assunto. Dr. Franklin é psiquiatra, dirigente do Grupo Espírita Hosana Krikor e membro do Núcleo de Estudos dos Problemas Espirituais e Religiosos (NEPER), do Instituto de Psiquiatria da USP.

Como pode ser analisado o quadro psicológico dos pacientes que passaram pela experiência de quase-morte?

 

Antes da vivência os pacientes temiam a morte, sendo que muitos a negavam, defendendo-se como podiam de entrar em contato com a finitude. Após a experiência, se deram conta que os momentos terminais da existência não são tão penosos quanto imaginavam ser. Existe um desconforto na fase pré-agônica, porém, na transição da vida para a morte vai havendo uma mudança no estado de consciência, início do contato com outro plano existencial e suspensão dos sintomas corporais. Conscientes de que a morte pode ser dolorosa, porém, morrer propriamente não é; os pacientes eliminam a angústia existencial gerada pelo medo da morte e sentem que estão começando uma nova vida.

Como se explicam alguns sintomas e relatos em comum entre as pessoas que passaram pela EQM, tais como: retrospectiva da vida como se fosse um filme, túneis escuros, presença de amigos e familiares desencarnados, ausência do tempo etc?

Na EQM os pacientes geralmente apresentam parada cardiorespiratória, devido a alterações circulatórias, metabólicas, infecciosas, tóxicas ou neoplásicas. Sabemos que as estruturas cerebrais responsáveis pela memória (hipocampo) são as últimas a morrer e, nessas áreas de memória, podemos rapidamente rever nosso histórico desde o útero, passagem pelo canal do parto (túneis escuros); encontro com a mãe fora do útero, na primeira infância, lembranças afetivas marcantes com amigos da infância, adolescência etc. Tais são as explicações de alguns neurocientistas que tentam definir o retorno da "consciência" ao corpo e a percepção dos fenômenos hipocampais, relacionados a memórias pregressas, de forma acelerada, ao regressar.

Como identificar uma EQM?

Geralmente, são pacientes que passam por morte clínica, necessitando medidas de ressuscitação cardiorespiratórias e enquanto são assistidos pelos médicos, mantêm um nível de consciência (extra) fora do corpo, experimentando sensações inexprimíveis; por vezes, ouvindo a notícia dada pelo médico de que está morto, passam rapidamente através de uma espécie de túnel em direção a uma luz e encontram-se com seres que são tomados por Deus, sentindo-se seguros e felizes. Podem flutuar no espaço livremente, avistando o próprio corpo no leito ou quem esteja ao seu redor. Às vezes, vêem pessoas conhecidas ou desconhecidas. Tais aparições, em geral, são de pessoas falecidas que vêm para buscar o paciente que está para morrer. Nesse período, ocorre uma recapitulação rápida, porém nítida, dos detalhes de seu passado individual. Poucos pacientes em suas EQM se aproximam de alguma barreira, fronteira ou uma espécie de limite, como uma extensão de água, uma névoa cinza, uma porta, uma linha, uma cerca em volta de um campo. Em seguida ocorre o retorno para o corpo, nem sempre com satisfação.

Por que é mais comum a EQM em pacientes que passaram pelo coma (natural ou induzido)?

Durante o coma ou em certos casos de anestesia geral ou parada cardiorespiratória, ocorre o afrouxamento dos laços que prendem o espírito ao corpo, havendo a projeção do corpo astral (desdobramento) que precede o desligamento definitivo do espírito.

Em geral, as pessoas que passaram pela EQM dizem ter mudado seus valores de vida e crenças. Podemos, então, dizer que essa experiência é uma oportunidade de crescimento espiritual não compreendida ainda pela ciência?

Sim. As prioridades de suas vidas passam a ser o Amor e o Conhecimento, tornando-se leitores assíduos, cursando faculdades ou escolas para estudar um campo diferente daquele em que trabalham.

Certas drogas e medicamentos ministrados a alguns pacientes em estados graves podem causar estados de alucinação e ilusão mental que podem ser confundidas com EQM?

Não. Os estados confusionais apresentados por pacientes em estado grave, que usam determinados medicamentos são distintos da EQM, pois não há perda de consciência e os eventos da EQM (sensação de estar morto, sentimento de paz e alívio das dores, experiências fora do corpo, o túnel, os seres de luz, a recapitulação e a rápida ascensão para o espaço), não se processam nesses estados tóxicos.

Qual é a diferença no estado mental do paciente que é dado como clinicamente morto por alguns instantes e o que passou pelo coma?

O paciente que é dado como clinicamente morto apresenta-se geralmente em parada cardiorespiratória com o eletrocardiograma isoelétrico indicando ausência total de batimentos cardíacos, pulsos ausentes, midríase bilateral e após as manobras de ressuscitação voltam ao funcionamento normal.

O paciente em estado de coma perde completamente a consciência, havendo perda completa da sensibilidade, o tônus muscular é diminuído, ausência dos reflexos miotáticos normais, podendo existir ou não reflexos patológicos e ausência de reflexos pupilomotores nos comas "cerebrais" ou nos estádios agônicos dos comas "cardiocirculatórios". Ao contrário, nos comas "tóxico metabólicos" os reflexos pupilares estão presentes e as vias óculo-motoras ainda respondem com movimentos conjugados dos olhos, quando se põe à prova, girando passivamente a cabeça. Nos estados de coma observamos batimentos cardíacos, pulsos presentes, respiração com ritmos respiratórios distintos, dependendo da origem do estado comatoso, os quais não são verificados nos estados de "morte clínica".

Por que a pessoa, ainda estando ligada por laços fluídicos ao corpo, não consegue dar os comandos a esse corpo por mais que se esforce para isso?

Não adianta um violinista brilhante desejar compor uma bela melodia se as peças do violino se encontram "lesadas".

Da mesma forma, um cérebro com hipóxia não permite, por exemplo, aos neurônios do sistema reticular, ativarem os neurônios do córtex cerebral para os atos motores, intelectuais, afetivos ou instintivos.

Existe uma forma de consciência que mantém uma certa independência do corpo físico e este, quando lesado, não responde ao comando da consciência, embora esta apresente níveis de atenção, sensopercepção e inteligência absolutamente normais.

Parece estar aí uma prova inconteste da existência do espírito.

Como seus pacientes que passaram pela EQM passaram a lidar com a vida?

A maioria passou a conviver melhor com a finitude do corpo, com o medo da morte, tornaram-se mais amorosos e estudiosos. Alguns pacientes, porém, durante a EQM se viram em situações amedrontadoras, como se estivessem em regiões infernais. Tais fatos são comuns em pacientes que tentaram o suicídio. Durante a convalescença eles acabam esquecendo o que presenciaram na EQM.

Como a ciência tem analisado a questão da vida após a morte, diante dos relatos de pessoas que passaram pela EQM?

Com muitas pesquisas científicas. Recentemente, há cerca de dois anos, recebemos no NEPER o Prof. Peter Fenwick da Universidade de Londres, apresentando pesquisas sobre EQM em pacientes com parada cardiorespiratória. Mesmo assim, existem cientistas extremados que negam a existência da alma imortal nos seres vivos. Para a Ciência oficial, no ser vivo nada mais há para sobreviver após a morte, a não ser o corpo físico. Daí as explicações deles são sempre as mesmas: alucinações autoscópicas devido a hipóxia cerebral, estado alterado de consciência, transtorno dissociativo entre a propriocepção e estruturas hipocampais etc.

As investigações baseadas em testemunho humano são insuficientes para a ciência, e fatos como a EQM ameaçam as bases materialistas do sistema vigente.

O psiquiatra americano dr. Raymond Moody, que é um dos maiores especialistas no tema EQM, diz que mesmo diante de tantos relatos e fatos, a Ciência não tem provas concretas da vida após a morte. Muitos médicos dizem ser esses relatos dos pacientes, estados alterados de consciência, apenas. Como o senhor analisa essa questão?

Realmente, não existem evidências científicas suficientes para comprovação da vida após a morte. Entrementes, há interesse por parte de vários investigadores tentando esclarecer esta questão. A obra de Gary Doore, traduzida para o português como Explorações Contemporâneas da vida depois da morte (Doore, 1992), da qual participam Ken Wilber, Stanislav Grof, Rupert Sheldrake, Gordon Greene, é um exemplo vivo desse interesse.

O desenvolvimento de métodos qualitativos de pesquisa pode suplantar, num futuro próximo, as restrições impostas pela Ciência oficial que impedem esse tipo de investigação na EQM. Muitos cientistas crêem no falseamento das declarações devido a interesses pessoais, crenças religiosas e filosóficas, fantasias psíquicas, distorções dos sentidos etc.

Temos o caso recente de Terri Schiavo, nos EUA, que após quinze anos em coma morreu porque as sondas que a alimentavam foram retiradas. Aqueles que crêem na imortalidade da alma sabem que além do corpo existe um espírito que necessita da prova, mas a Ciência, por não admitir ou considerar esse fato, acatou a ordem de desligar.

Essa é uma questão fundamental de crença. Para os materialistas não faz sentido manter uma vida vegetativa, muitas vezes às custas de intenso sofrimento familiar, ao observarem procedimentos médicos invasivos, agressores, destinados apenas à manutenção de um equilíbrio profundamente instável do corpo físico. Para os espíritas, o cumprimento do tempo destinado na Terra é fundamental, pela possibilidade do desenvolvimento do perdão entre os familiares, que acabam se unindo mais, durante o transcorrer da prova do espírito encarnado.

Gostaria de acrescentar algo sobre a EQM?

A EQM, independentemente das "provas" científicas, evidencia a vida após a morte do corpo, assim como casos de xenoglossia responsiva bem documentados, os casos sugestivos de reencarnação, a transcomunicação instrumental, a experiência fora do corpo, a regressão a vidas passadas, a facilidade de algumas pessoas para habilidades musicais, línguas, a evolução das espécies etc. Precisamos de paciência para traduzir a observação dos fatos em construção científica da imortalidade.

Na ciência espírita devemos continuar, tijolo a tijolo, seguindo as orientações de Kardec, o mestre de Lyon: "Não é o apito do maquinista que coloca o trem em movimento?". Ao trabalho! E logo Filosofia e Religião se integrarão à Ciência oficial.


Publicado na Revista Cristã de Espiritismo - ed. 34. Ao utilizar este texto, favor citar o autor e a fonte
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Victor Rebelo é comunicador e pesquisador espiritualista. Com formação em Life Coaching, realiza palestras e workshops sobre desenvolvimento pessoal, espiritualidade, mindfulness, mediunidade e outros temas.

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